A importância de ser antirracista no "novo normal"
- Ana Minuto

- 15 de ago. de 2022
- 4 min de leitura

O antirracismo no chamado "novo normal" exige do mundo, agora transformado pela era da COVID-19, ir para além de arremedos de políticas inclusivas, com forçosos discursos a favor da diversidade racial em empresas, organizações e universidades. Mais do que nunca, o antirracismo precisa se dar na prática, e brancos de fato precisam ocupar o lugar de fala que lhe é de direito: o de reconhecimento de privilégios, por ser lido como branco, e do papel da branquitude na construção de sociedades estruturalmente racistas. Sobre como é ser alvo diário de racismo, com propriedade, falam os negros.
Num quadro de previsões assombrosas, o uníssomo é: não haverá volta ao "antigo normal". Aliás, a ideia mundialmente difundida pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 27 de abril deste ano, no documento Diretrizes Nações Unidas para a resposta socieoconômica imediata à covid-19, também é corroborada por inúmeros estudos sobre tendências de mercado e de previsão do mundo pós-pandemia. O texto da ONU preconiza a importância da "responsabilidade compartilhada, da solidariedade global e da ação urgente para pessoas necessitadas", para emergirmos do colapso mundial.
Elementos essenciais em um país de bases eugênicas, onde nascer preto tem implicância muitas vezes fatal. Portanto, há um chamamento urgente para o comprometimento da população branca em pautas antirracistas. Quem não vê nenhum problema nas relações raciais no Brasil provavelmente desfruta do privilégio de ser branco, sem importar para esta discussão se branco da periferia ou se de redutos da classe média brasileira.
Reconhecer privilégios - e , mais ainda, reconhecer o direito de outro, ainda que isto implique perda de benefícios para si e para o grupo ao qual pertence - é para os fortes. A negação de ser beneficiado por privilégios em decorrência da degradação do outro, no caso da população negra, ainda é o comportamento mais comum apesar de dados gritarem que um paciente negro, não-alfabetizado, tem quatro vezes mais chances de ser vítima fatal da COVID-19, que um paciente branco com nível superior. A informação é do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio (Nois). As estatísticas do estudo escancaram a disparidade que negros conhecem bem. Morreu mais da metade dos negros internados em hospitais no Brasil para tratar casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), mais tarde confirmado o diagnóstico de COVID-19. A taxa de letalidade para negros internados foi de 54,8%, contra 37,9%.
Talvez o mais pujante exemplo de antirracismo dos últimos tempos venha dos Estados Unidos em decorrência do assassinato brutal de Georgel Floyd, sob custódia da polícia americana. Brancos americanos têm reconhecido, ao menos, "serem parte do problema". Embora o racismo seja um problema cem por cento criado pelos brancos, é algum avanço que, individualmente, brancos se sintam responsáveis pela situação ocasionada pelo racismo. No país norte-americano, alguns fizeram cordão de isolamento para negros ameaçados pela polícia americano. Um claro reconhecimento do privilégio, pois está dito aí, que a polícia não avançaria sobre a população branca, como é comum que o faça sem reservas em relação à população negra. E os brancos sabem disso. Não é à toa, ofereceram seus corpos como barreira. Negros, nós não tivemos escolha, corpos dados como barreira para que a violência, o desemprego, as mazelas sociais não atingissem as camadas privilegiadas. São constantes os joelhos que não arredam de pescoços negros para fazerem desaparecer a voz da negritude.
Reconhecer a negritude é um dos pré-requisitos para ser antirracista, e parar de passar vergonha com frases que só atrapalham o avanço da população negra à cidadania plena. É fundamental tirar da lábia clássicos como "somos todos iguais, sem distinção de gênero ou raça". Isto não apenas é um erro de análise, como um desserviço à pauta antirracista, pois estatísticas deixam cair por terra afirmações preferidas de racistas não-declarados, ou de quem se entende antirracistas,porque "considera que todos são iguais".
Portanto, ser antirracista é fazer uma análise diária de seus privilégios. Nos tempos atuais, é fundamental que brancos se façam as seguintes perguntas: "Por que brancos, apenas por serem brancos, têm mais chances de sobreviverem à COVID-19 do que negros? Por que é um privilégio ter a chance de trabalhar em casa, num home office equipado, quando boa parte dos negros está alijada de seus trabalhos, que exigem presença física. Outro questionamento: "Quantas vezes, durante a pandemia, a faxineira negra adentrou o meu lar e deixou "tudo cheirosinho" para garantir o meu alto desempenho na empresa global bacanérrima onde trabalho, com pessoas também incríveis que, eu acredito que, como eu , chegaram lá por mérito" ? Eu, branco, já me perguntei se há negros lá?
No entanto, apesar da concordância de que o mundo não será mais o mesmo, o reconhecimento de desfrutar de privilégios não livra ninguém de ser racista, e menos ainda desata do compromisso de ser antirracista. Portanto, apesar da fala comum, a quarentena traz também mais tempo para brancos se analisarem internamente. Pode começar assim: "Obviamente não sou racista, mas quantas vezes mudei o lado de caminhar na rua (quando nela podíamos estar) quando um homem negro se aproximava, e tive medo de que ele levasse a minha carteira ou tirasse a minha vida".?
Respostas aqui.
Ana Minuto


Comentários