Precisamos falar sobre as potências negras.
- Ana Minuto

- 26 de dez. de 2022
- 2 min de leitura
Nós, mulheres negras, somos potência. E essa característica precisa ser amplificada e vivida em sua plenitude.
Uma das excelentes oportunidades para isso é quando ocupamos cargos de liderança.
Acontece que não fomos programadas para estar o topo das pirâmides organizacionais. Nem nós, nem as empresas e nem os liderados. Quando isso vira realidade, vemos um desarranjo do bem ocorrer, e aí são incontáveis as simbologias de se ter uma líder preta.
Historicamente, viemos de uma estrutura patriarcal, em que as mulheres eram relegadas às suas casas. As brancas tinham o papel de educar os filhos e acompanhar os homens em alguns eventos (o mais bonitas e caladas possível), já as negras tinham a obrigação de arrumar a casa, cozinhar e cuidar dos filhos dessas mulheres brancas (o mais limpas e caladas possível).
Não existia a possibilidade haver de protagonismo enquanto mulher, enquanto empreendedora, tão pouco enquanto líder. Como você pode ver, essa questão de gênero é profunda e diferente para as mulheres brancas e as negras. Inegavelmente, o processo de apagamento das pretas se dá em um nível diferente.
Trazendo para o mundo corporativo, se as equipes muitas vezes não estão prontas para serem conduzidas por uma mulher branca, quando essa mulher em cargo de chefia é negra, aí fica mais complicado ainda.
“Como promover uma maior presença de mulheres negras na liderança, se todos os dias ela tem que lutar contra o machismo que tanto permeia nossa sociedade?“
“Como aumentar o número de mulheres negras líderes, se todos os dias somos vistas tão somente como um corpo hipersexualizado e não como uma mente brilhante?“
“Como trazer mais mulheres negras para a roda, se na mesa de decisão só tem homem, branco, cis, hetero, de meia-idade?“
Esse é o momento em que o autoconhecimento para nós mulheres (e especialmente nós pretas) se mostra de extrema importância, seja para nos fortalecermos para conseguirmos lidar com todas essas questões à nossa volta, seja para criarmos estratégias para entrarmos e permanecermos nessas posições de liderança em companhias com esse retrato que falei acima.
Outro desafio é não passarmos por um processo de negligenciarmos o nosso eu feminino. Quer um exemplo? Quando eu assumi um cargo de liderança na área de tecnologia, mesmo adorando saias, passei a usar somente calças, para evitar algum comentário desagradável a respeito das minhas pernas. Para ser ouvida e respeitada, tive que adotar uma postura mais firme e até mais masculinizada. Tudo por sobrevivência. Mas essa é uma sobrevivência temporária, porque esse tipo de postura e de ambiente são favoráveis para adoecermos, já que ele nos “diz” todos os dias que não era para estarmos ali.
“Não sejamos inocentes, a sociedade odeia o diferente, tudo que foge ao padrão imposto por ela é repelido. “
Mas e aí? O que fazer diante disso?
Primeiro, não podemos permitir que esse cenário nos paralise e jamais devemos deixar de questionar o status quo.
Segundo, precisamos de desenvolvimento contínuo. O caminho é estudar, estudar e estudar.
Terceiro, devemos construir relacionamentos, fazer trocas, porque todas nós vamos, uma hora ou outra, precisar de alguém para nos dar uma força.
E por último, é fundamental que sejamos protagonistas. Então, nos enchamos de coragem para ir pra cima e conquistarmos o espaço que é nosso por direito.
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